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Ainda não deu meia-noite e o garçom profere a frase mais temida pelos boêmios de carteirinha: “Estamos encerrando! Mais algum pedido?”. Bem, na verdade, sim – afinal, é sexta-feira, e receber o papel de uma conta que não foi pedida e um copo de plástico para substituir a taça do gim tônica definitivamente não estavam no roteiro. A verdade é que ainda é desafiador entender porque a maioria dos estabelecimentos que renderam a Belo Horizonte o título de “capital dos bares” encerra suas atividades quando a noite ainda é encarada por muitos como “uma criança”.

A jornalista Daniela Sousa, 41, já perdeu a conta das vezes em que ouviu a citada frase. “Vejo cadeiras sendo empilhadas enquanto ainda estou na conversa com os amigos ou o garçom, com a maquininha em mãos, pedindo para acertar a conta, de modo a liberar o caixa”, relata ela, que raramente consegue curtir as happy hours, por trabalhar até mais tarde. Para evitar a frustração, ela tem optado por seguir do trabalho direto para a casa. A jornalista diz entender que, em regiões residenciais, é preciso respeitar a rotina dos moradores, mas acredita que alternativas poderiam ser pensadas.

De fato, boa parte dos estabelecimentos da cidade – seriam cerca de 12 mil, segundo a Abrasel em Minas Gerais – não estende o horário do funcionamento não só pela questão da segurança e em função de encargos trabalhistas (como adicional noturno), mas, principalmente, diante da reclamação das cercanias. Presidente da Abrasel no estado, Ricardo Rodrigues cita a Lei do Silêncio, que orienta os estabelecimentos a encerrarem mais cedo suas atividades, pontuando que a desobediência pode resultar até na perda do alvará de funcionamento. “Nós, enquanto empresários, não queremos fechar cedo, mas a legislação obriga a isso”, explica.

A legislação municipal de emissão de ruídos (9.505/2008) preconiza que, entre 19 e 22h, o limite de ruídos permitido é de 60 decibéis; das 22h à meia-noite, cai para 50; e, na madrugada, entre 0h e 7h, para 45.

Além disso, manter as portas abertas até altas horas é oneroso. Conselheiro da Abrasel, Túlio Montenegro estima que o custo pode aumentar de 15% a 18%. Também pesam as poucas opções de transporte público na madrugada, o que traria transtornos aos funcionários. Por fim, ele avalia que houve uma mudança de hábitos. “Nós, nascidos nas décadas de 40 e 50, éramos mais acostumados a noitadas, o que foi mudando com o tempo”, entende. Por fim, entra em cena a atual situação econômica do país, “que não permite que a clientela protele muito a estada no bar”, situa.

Boa vizinhança

Localizado sob um prédio residencial e ao lado de outro, no bairro Floresta, o bar e restaurante Dorsé avisa que os últimos pedidos da cozinha e do bar podem ser feitos às 23h30. “Admiro quem tem a habilidade de manter uma casa aberta até mais tarde, pois isso exige toda uma logística de cozinha, de hora extra e de adicional noturno”, pondera Gustavo Castro, um dos sócios, adicionando outros motivos para fechar cedo. “O movimento também nem sempre é certo. Não é todo mundo que tem a disponibilidade de beber até o sol nascer”. No entanto, ele reconhece, divertido: “Quando não tinha bar, era um dos últimos a sair”.

Pablo Teixeira, do Cabernet Butiquim, reconhece que o encerramento precoce da casa se dá por respeito à vizinhança. “Encerramos a calçada às 22h30, pois nosso alvará de utilização da rua é até as 23h. Aos que querem permanecer, convidamos a entrar, pois, no interior, a saideira é às 23h30”, aponta. Mesmo lá, seria preciso criar outro turno de funcionários para avançar o horário. “E, na verdade, a gente também quer dormir, né?”, completa.

Adaptar é preciso

Em suas duas unidades (Lourdes e Sion), o Albanos encerra as atividades à meia-noite em ponto. As razões são a política da boa vizinhança, firmada com as respectivas associações de moradores, e a Lei do Silêncio. “Buscamos ter uma convivência harmoniosa. Afinal, nossos vizinhos são parte considerável da nossa clientela”, admite o gerente Adori Garcia.

Gael Paim, um dos proprietários do Baixo Lourdes – ex-Butchery – , por sua vez, conta que a proposta do estabelecimento foi alterada para garantir a harmonia com os moradores. Quando era um espetinho, o local era frequentado por um público mais jovem (e mais barulhento), que curtia beber em pé com a long neck na mão. “À época, não havia diálogo com a vizinhança. Aí vimos que era parar com tudo ou mudar o conceito”, relata ele, que hoje recebe um público mais velho, que ocupa as mesas da calçada. Com menos barulho, claro.

Mas Paim pondera: não fosse a vontade de manter o bom relacionamento com o bairro e evitar possíveis multas, o estabelecimento avançaria sim, para além de meia-noite. “Acho que são um desserviço para cidade (os impedimentos para funcionar até mais tarde). Já não temos praia e nem tantos atrativos turísticos assim. O que há de melhor é a hospitalidade do mineiro e os botecos”, defende.

Gerente de uma das unidades de uma rede de saladerias e boêmia por vocação, Ana Paula de Oliveira Araújo, 27, endossa. “Sempre que recebo alguém de fora, noto a surpresa: ‘a capital dos bares dorme cedo!’”. E conclui: “Acaba que, para seguir noite adentro, o jeito é apostar nos bares mais ‘copo sujo’, que ficam abertos na madrugada”.

Justificativas

“Estamos em um bairro misto, com comércio e residência e em busca do bom convívio com os vizinhos. Além disso, depois de certo horário, o transporte de funcionário fica muito difícil”.
Matheus Mourthé, proprietário dos bares Tizé e Tinto Gastronomia Descomplicada, ambos no ‘fervo’ do Lourdes, um dos polos de entretenimento em BH

“Se houvesse segurança, seria uma bola de neve positiva: mais gente iria pra rua, começariam a frequentar bares e restaurantes e as ruas não ficariam ermas”. Marcela Basques, à frente do Paris 6

Meia-noite é até tarde demais

Bares que ousam estender o horário de atendimento após a meia-noite são cada dia mais raros na capital mineira – mas há alguns “velhos” conhecidos, como o Chopp da Fábrica, o Bar do Nonô e o La Greppia, que costumam ficar abertos até altas horas, especialmente nos fins de semana. E há também os novos que se arriscam.

A franquia do restaurante Paris 6 poderia até se encaixar na ala da resistência: o restaurante ganhou fama no país por funcionar 24 horas. Na verdade, ao chegar a BH, em 2016, integrado ao Pátio Savassi, a casa abria até altas horas. Hoje, os clientes só podem entrar até as 23h. “O que levou a essa alteração foi a realidade da cidade. Ficávamos abertos sozinhos, e optamos por mudar até para a própria segurança dos clientes”, explica Marcela Basques, empresária à frente do local.

Lucas Brandão, sócio-proprietário do Agosto Butiquim, no Prado, acrescenta à lista de desestímulos o que entende como uma mudança de hábitos. “Ninguém mais sai de casa às 22h30 para ir a um bar – mas, claro, os que ficam abertos acabam recebendo um fluxo”, cita ele, que normalmente fecha seu estabelecimento por volta da meia-noite. “É preciso dizer que a casa está localizada em uma região que é de comércio. Assim, se não há cliente, não justifica permanecermos abertos, ainda mais com os custos”, pondera.

Já Leo Paixão, chef e proprietário do Nicolau Bar da Esquina, no Santa Tereza, que fecha à 0h, nem considera esse horário “cedo”. “Acho até tarde, se compararmos a outras cidades brasileiras que tenho como referências ou a praças como Paris, Londres e Nova York, onde à meia-noite não tem mais nada na rua. Fechar cedo seria 21h, 22h”, argumenta.

Para ele, qualquer bar que funcione após a 0h adquire outra configuração: a de balada. Sem revelar detalhes, o chef conta que até tem planos de abrir um novo estabelecimento com essas características. O funcionamento? Das 22h às 5h.

Resistentes, alguns bares oferecem opções noite afora

Apesar das dificuldades, alguns estabelecimentos focaram a demanda dos notívagos que gostam de madrugar no bar e optaram por ficar abertos até altas horas com opções de comida e bebida.

Depois de aproveitar os bares que fazem parte do circuito gastronômico da rua Sapucaí, no bairro Floresta, os boêmios geralmente seguem em direção ao Espanta Crise Café – ou, para os íntimos, Bar do Tim – cuja atividade noturna começa às 22h e persiste até as 6h, oferecendo cerveja gelada em lata, pastel frito ‘esquecido’ na estufa – o foco, definitivamente, não é a gastronomia – e doses de nostalgia musical. “Os bares todos fecham, e o pessoal acaba se encontrando lá. É por isso que mantenho aberto. Acabou que todo mundo conhece todo mundo, e viramos uma grande família”, explica o proprietário Rômulo Costa.

Ele acrescenta que, se deixar, a noite não tem fim. “Saideira? Enquanto estiver rolando, não acaba. Mas quando eu não estou mais aguentando o batente, sempre insinuo aos clientes: ‘Gente, na hora que vocês quiserem ir embora, eu já estou pronto”, brinca, aos risos.

Situado em frente, o bar Hora Extra já diz a que veio no nome – aliás, abre todos os dias da semana. Lá, o proprietário Gleison Teixeira oferece petiscos, sanduíches e cervejas artesanais, além de atender a um público mais específico: os veganos. “E essas opções detêm uma participação significativa no faturamento da casa”, revela ele, que mantém o local aberto até as 3h da manhã.

Na Savassi, Déborah Alves, nome à frente do Yellow Submarine, acredita que existe, sim, um público que transita pela madrugada – o que seria mais importante do que os percalços. “Mas o custo de mão de obra é uma dificuldade, assim como manter os produtos frescos na cozinha”, ressalta.

João Augusto Costa, do Santeria, também na Savassi, completa: “Minha motivação é justamente conquistar o público que quer beber ou tomar um drink até mais tarde. É um serviço que as pessoas procuram”.

Fonte: O Tempo



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